quarta-feira, 1 de março de 2017

Por que Escrever? / Por que Escolher a Psiquiatria?

POR QUE ESCREVER?


Essa pergunta soa, para mim, como questionar a um pássaro: por que voar?
Nossa liberdade não é necessariamente física, mas mental; é onde sinto minhas asas e que posso ir dos céus, ao chão.

Estava prosando com Deus quando, peguei o violão e senti de compor algo, musicar nossa conversa, pensei "por que não escrevê-la?". Geralmente recorro à caneta (tenho uma série de cadernos) ou ao bloco de notas, mas foi quando surgiu a ideia: um lugar onde não corra o risco de perder e que meus familiares não vejam... Uma conta, um blog talvez.

Já haviam me sugerido tanto outrora, desde criança escuto amigos e professores, em meio as conversas ou lendo meus escritos, dizerem: "você escreve? Tem algum site? Por que não cria um blog?". Mas dessa vez o pensamento foi maior, não seria algo por mim, ou por indução dos conhecidos, mas pela Vida.
Estou de passagem aqui e quero tornar minha existência mais útil, não há nada demais em minha escrita, mas quero doar mais do que os meus órgãos ao partir dessa terra, quero doar meus pensamentos, sentimentos, sorrisos, ouvidos, ombros, partilhar meus momentos, experiências de vida, mas especialmente, minha fé que provém do Amor maior que conheci (Cristo).


(Cena do meu filme predileto "Into The Wild".
A escrita representa a mim: liberdade.)


PSIQUIATRIA


Foi pensando assim, em tornar a minha passagem útil não apenas a mim mesma, que decidi ser psiquiatra ainda na infância, quando nem sabia distinguir psiquiatria de psicologia, e usava a descrição psicofóbica batida da sociedade: "vou cuidar dos doidos". Entretanto, nunca os enxerguei dessa forma, apenas reproduzia o que me diziam. Não havia nenhum psiquiatra em minha família e ninguém aceitou bem essa ideia, costumava ouvir piadas, ou comentários para me desmotivarem: "Lidar com malucos? Eles são agressivos, não podia escolher uma área melhor? Você sabe que pode enlouquecer? Já vi casos de psicólogos e psiquiatras assim".



(Cena do filme "Batman O Cavaleiro das Trevas", outro da lista de prediletos.
Apesar das críticas, por não corresponder fielmente a HQ, o Coringa que mais admirei, me julguem. Me recuso a ver este personagem como um vilão; interpretado geniosamente por um dos meus atores favoritos: Heath Ledger, o qual tanto personificou o papel, que foi afetado pelo mesmo.)

Ouvi esses comentários ao longo de minha vida, até hoje. Sempre optei por tentar interpretar da melhor forma: preocupação familiar e alheia, tabus construídos socioculturalmente, eles não têm culpa. A principio eu descrevia minha paixão com ânimo e tentava desmistificar os pré-conceitos criados; ao crescer e amadurecer, passei apenas a suspirar e afirmar não querer outra área, senão essa. P
ensava em umas respostas ácidas, mas nunca consegui dar desaforos, só ironias, minha falta de coragem educação não permite. No máximo, não passava dessa expressão:




Pensei que viesse a ser detetive, até legista tive interesse, mas o que me ganhou foi a psiquiatria, quando menor descobri, creio que na televisão, que havia uma profissão dedicada à mente humana, esse interesse nasceu em mim e cresceu comigo, quanto mais complexa e enigmática de desvendar, maior meu interesse, soube então que devia ser psiquiatra. Movida pelo desejo de compreendê-los, conhecê-los e ajudá-los, ninguém me tirava isso da cabeça.


Quando assistia reportagens e definiam os homens pelos crimes que haviam cometido, exemplo: "ladrão assalta supermercado", eu só conseguia pensar "por quê?"; enquanto as pessoas se restringiam às constatações óbvias (aos de senso moral): condenar ao próximo pelos seus equívocos já explícitos; questionava o motivo que tivera o levado aquele ponto, quem era e a vida que teve (não, não sou 100% da turma dos Direitos Humanos, até porque nossa "justiça"é injusta, vergonhosa e deve ser mais rigorosa; mas não se tratando dos meus pacientes que, por vezes, não recebem o tratamento que merecem, são tratados com descaso e de forma negligenciada; aí entro na turma da psiquiatria forense e reforma psiquiátrica - luta antimanicomial).

Compreendia perfeitamente quão errado era, mas não me contentava com a superfície do prejulgamento humano, que é comum (previsível e tedioso), vez que sejamos racionais; ser raso como um David Mills e se deixar levar pelo emocional é fácil, para quem não tem a mente expansiva como um dt.William Somerset (se não pegaram a referência: "Seven"; corram para a Netflix).

Queria vasculhar os casos a fundo, indagava o que se passava naquela mente e tentava simular o que teria motivado o crime, criava vários contextos e às vezes coincidia com os fatos; confesso, nessas horas me sentia uma Lincoln Rhyme (expectativa) ou coisa que o valha; mas menos dramático, sem a maca do hospital, era do sofá de casa mesmo (realidade).






Quem você seria sem ter o controle de sua mente?

Imagine o que é perder-se dentro de si próprio...
Com esses que eu almejo partilhar da minha "sanidade", da clareza do pensar e do real, para ser uma "lanterna" em seus labirintos mentais de modo que encontrem a si em suas mentes; assim como, por vezes, partilham de seus universos infinitos, sem as fronteiras do que a sociedade estipula ser a "sanidade" (o que faça-lhes sentido e corresponda seus interesses); mas vale lembrar: os mesmos ditos "sãos", já faltaram muito com essa, como no vasto histórico do que se define na Psicologia e Filosofia como "normose", vemos exemplos ao longo da história da humanidade.
Não me parece sã, nem sensata, a capacidade de discriminarem, abandonarem e praticarem maus tratos às pessoas que têm a saúde mental comprometida, aos quais deveríamos cuidar ou, no mínimo, respeitar (o mesmo aos animais indefesos). Felizmente isso vem sendo mudado, inclusive, psicofobia é considerado crime.

Temos muito a aprender com todos eles, é um trabalho recíproco; os meus amigos ("pacientes", porque ambos devemos ter paciência haha) também hão de iluminar nossas mentes para mostrarem isso, desmistificando quem eles são aos ignorantes que temem o incógnito, e com isso perdem a oportunidade de conhecerem seres de corpo e ALMA, como nós, talvez de alma mais aflorada e transparente, mente mais avivada, mas, antes de mais nada: humanos.



O céu da mente infinita de quem ultrapassa as barreiras da sanidade social.💓
(Ensaio com pacientes psiquiátricos.
Por: Marylise Vigneau)


Há coisas que não fazem sentido, enquanto não sentidas; é preciso olhar mais do que a olho nu, é preciso despir a alma e enxergar com o peito aberto para, só então, compreender. Mas algo tão simples torna-se tão difícil nesse mundo de aparências, ilusões ópticas, preconceitos e tantos juízes; a frieza, ignorância e insensibilidade tornam-se normais, alimentam a incompreensão dos ditos "racionais" que, frente a quem perca a razão, perdem a emoção por seus semelhantes desiguais.


(Mais uma obra de arte fotográfica da Marylise Vigneau.
Captando a sensibilidade do florescer do Ser.)

Pois bem, e é para partilhar a minha mente que estou aqui. São tantas as coisas que rondam essa caixola mas, como o Hannibal, vamos ir por partes, para que degustemos de cada detalhe... Muito provavelmente minha mente não seja do seu gosto, não é do meu também, mas ao contrário de você, leitor(a), que posso dizer: "mantenha distância da minha cabeça" (Sérgio Sampaio); não tive escolha, convivo com ela, passei então a saber como lidar com isso da melhor forma possível, a escrita, mas especialmente Deus, me ajudaram nesse processo.



(Pausa para sugestão musical.
Ouçam comigo, meu músico br predileto.)


Mas isso fica para outro dia, este tópico já ficou muito extenso.

Escreverei em outro sobre:
- Como iniciei na escrita?
- Minhas fases trevosas:
Depressão, pensamentos suicidas, crises existenciais.
- O que fluir.
(Já que aprecio a imprevisibilidade: tudo surge mais espontâneo e natural)


Agradeço à atenção.
Abraço na alma e beijo na testa (mente) de vocês!

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